23 junho, 2010

Calou-se José Saramago


  
   Poema à Boca Fechada
  
   Não direi:
   Que o silêncio me sufoca e amordaça.
   Calado estou, calado ficarei,
   Pois que a língua que falo é de outra raça.
  
   Palavras consumidas se acumulam,
   Se represam, cisterna de águas mortas,
   Ácidas mágoas em limos transformadas,
   Vaza de fundo em que há raízes tortas.
  
   Não direi:
   Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
   Palavras que não digam quanto sei
   Neste retiro em que me não conhecem.
  
   Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
   Nem só animais bóiam, mortos, medos,
   Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
   No negro poço de onde sobem dedos.
  
   Só direi,  
   Crispadamente recolhido e mudo,
   Que quem se cala quando me calei
   Não poderá morrer sem dizer tudo.




Um comentário:

Cinthia Anhesini disse...

Pessoas fascinantes atraem historia de vida fascinantes.

Ocorreu um erro neste gadget