23 maio, 2010

Frida Kahlo


Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón

Marcada por um trágico acidente aos 18 anos e por uma vida inteira de sofrimentos físicos, Frida conseguiu ser, ainda assim, a grande pintora mexicana do século XX. Trágica, apaixonada e genial, ela sintetiza a alma feminina da América Latina.

Nenhuma dor pelo dano
 Todo dano é bendito
Do ano mais maligno
nasce o dia mais bonito
um dia, um mês, um ano 

Magdalena Carmen Frieda Kahlo y Calderón nasceu a 6 de julho de 1907, às 08:30, em Coyoacán, subúrbio da Cidade do México. Seu mapa astrológico e sua origem – familiar, social e nacional – já sinalizam as contradições e ambigüidades que matizariam sua existência, marcada pela intensidade, pela paixão e pela dor.
Em que pese que a vida desta mulher seja fascinante e complexa, vamos pelo caminho que determinam principalmente os aspectos que marcaram sua trajetória feminina a partir dos problemas de saúde. Como o próprio nome de batismo já profetizava o sofrimento na condição feminina mostra-se à existência de Frida desde a mais tenra idade, golpeando sua vaidade sensual.
Não obstante a etimologia da palavra Frieda (nome teutônico) significar “pacífica”, ela, mais tarde, vai mudar a grafia do seu nome para “Frida”, a que protege. Magdalena (nome aramaico: “cidade das torres”) e Carmen (nome latino: “poema”), por sua vez, evocam arquétipos desafiadores, valentes, ferozes e, porque não dizer, trágicos, se lembrarmos a ópera de Bizet e o que nos foi contado acerca da enigmática Maria de Magdala.


O pai era um judeu alemão, Wilhelm Kahl, que “latinizou” seu nome para Guillermo Kahlo quando chegou ao México. Já era viúvo quando se casou com a católica fervorosa Matilde Calderón. Frida é a terceira filha deles e, em seguida, sua mãe engravidou novamente. Recém-nascida, foi entregue a uma ama-de-leite para ser amamentada. Frida expressa o sentimento profundo de rejeição materna no quadro “Eu a Mamar” (também chamado A Minha Ama e Eu), de 1937. Sua irmã caçula, Cristina, é onze meses mais moça. Mais tarde, estas duas mulheres, a mãe e a irmã, seriam protagonistas de momentos cruciais na vida da pintora.



A efervescência do início do século XX trazia em seu bojo muitas novidades culturais e  lutas sociais, além da revisão de costumes, questionamentos sobre os papéis dos gêneros e dos direitos de cada um deles. Desde jovem, Frida já mostrava seu perfil transgressor e rebelde: na foto familiar, veste-se de homem e fica em pé, numa atitude de clara contestação e desafio à cultura da época.


Aos quinze anos, converte-se em membro de um grupo político que apoiava as idéias socialistas-nacionalistas. Alejandro Arias, seu futuro noivo, era o líder do grupo. Comenta-se mesmo que, antes dos 20 anos, discutia o viés político de Hegel (tendo passado por Marx) e lia Schopenhauer, alternando-o com Spengler. (Bem mais tarde, tudo isto também propiciaria um encontro inusitado com Leon Trotski e sua esposa, quando os recebeu em casa, dando-lhes guarida da perseguição stalinista). As questões sociais e políticas permeariam de forma permanente a sua existência. Tendo o México como berço, um país tão vibrante, passional, multirracial, Frida via espelhado ao redor suas próprias contradições internas, pessoais e familiares.

"O que não me mata, me fotalece"


Frida forjou na própria carne a força visceral que a levou a fazer da dor a mais preciosa arma para continuar a viver. Seu corpo foi o palco para os prazeres mais secretos e a agonia mais lancinante. Talvez, por isto, sua obra expresse tanta passionalidade. Os desafios que sofreu e que ao mudar seu destino forjaram sua personalidade, alteraram toda sua trajetória feminina. Aos seis anos, (1913), Frida foi vítima de poliomielite. Apesar de nove meses exercitando-se regulamente, o resultado foi uma sequela na perna direita, que se tornou bem mais curta e delgada do que a outra, e um pé atrofiado. Na escola, os coleguinhas, ratificando a inata crueldade infantil, apelidaram-na de “Frida, perna de pau”. Desde cedo, sua vaidade começou a receber duros golpes. Mas parece que a alma de Frida tinha marcado um encontro especial com o destino, aos 18 anos. 
Ao voltar da escola, no dia 17 de setembro de 1925, sofreu um trágico acidente a bordo de um ônibus, que resultou em inúmeras fraturas (onze somente na perna direita), um defloramento por uma barra de ferro que lhe atravessa o quadril, uma sucessão de trinta operações e intermináveis períodos de convalescença. Mais tarde escreveria em seu diário: “e a sensação nunca mais me deixou, de que meu corpo carrega, em si, todas as chagas do mundo”.  Fatalidade, destino, circunstâncias fora do nosso controle, escolhas inconscientes, seja como for, seja qual for o nome que nos parecer mais apropriado a estas situações, o fato é que não ficamos incólumes quando somos beijados pela morte. Ninguém volta do mesmo jeito que era depois de uma temporada no Hades. De repente, não mais que de repente, a jovem mulher que tencionava cursar medicina e era noiva se vê confinada a uma cama, a uma série de tratamentos médicos, à solidão das horas e ao abandono amoroso (sim, Alejandro, o noivo, algum tempo após o acidente, anunciou sua mudança para a Europa… bem verdade, também, é que a mãe e a irmã dele nunca aprovaram seu romance com Frida). Neste deserto existencial, forja-se a artista plástica que viria a ser um ícone de seu tempo, posteriormente.


A família, sensibilizada por tamanha desventura, constrói um cavalete especial para que ela pudesse pintar sem se levantar da cama e instala um espelho no dossel, o que lhe valeria muitos auto-retratos ao longo dos anos. “Pinto-me a mim mesma porque estou com freqüência sozinha e porque sou a pessoa a qual melhor conheço”. Ao que tudo indica, e ela mesma percebeu mais tarde, este acidente foi apenas um trailer do que seria a vida de casada ao lado de Diego Rivera. De acordo com suas palavras textuais, “sofri dois grandes acidentes na minha vida: um foi em um ônibus e outro foi Diego”.




A vida amorosa de Frida foi intensa e apaixonada, marcada por infidelidades mútuas e envolvendo, também, casos homossexuais.  Anos mais tarde, Frida também se casou duas vezes (em 1929 e 1940) com o mesmo homem (Diego Rivera), e, oficialmente, a separação durou apenas um ano (1939-1940). O casamento de Frida se dá aos 21 dias do mês de agosto de 1929. Diego tinha 42 anos, media 1,86m e pesava 136kg. Frida tinha 22 anos, media 1,60m e pesava somente 44,5kg. A mãe de Frida não aprovou a união (“é o casamento de um elefante com uma pomba”), dizendo que Diego era demasiado velho e gordo, além de comunista e ateu. O pai viu a possibilidade de mais alguém cuidar da saúde da filha e os amigos ficaram atônitos com a escolha.


O próprio Diego, que prometeu “lealdade” ao invés de “fidelidade”, acabou por se envolver com várias mulheres ao longo do casamento, inclusive com a cunhada mais nova, Cristina (em 1934), o que acabou por provocar o divórcio (em 6 de novembro de 1939).
Nas Cartas apaixonadas de Frida Kahlo, encontramos frases que expressam sua dor por ter de enfrentar esta traição da própria irmã (todos os trechos a seguir são da carta de 18 de outubro de 1934, p. 64 a 67):

"Nunca sofri tanto e não pensei que pudesse suportar tanta dor (…), aqui no México, não tenho ninguém: tinha apenas Diego e as pessoas de minha casa, que encaram esta questão de um modo católico. As conclusões que tiraram me são tão estranhas que não posso contar com eles. Meu pai é uma pessoa magnífica, mas lê Schopenhauer dia e noite e não me ajuda em nada…"

Aos 27 anos, Frida, a exemplo de tantas outras jovens esposas da época, apesar de já ser razoavelmente conhecida e famosa, ainda não tinha consciência do valor da alteridade, projetando toda a sua valia no papel conjugal:
"Não tenho nada porque não o tenho. Nunca achei que ele fosse tudo para mim e que, separada dele, eu fosse um monte de lixo. (…) Mas agora percebo que não tenho nada além de qualquer outra moça, decepcionada por ser abandonada por seu homem. Não valho nada; não sei fazer nada; não consigo estar sozinha."

A desilusão com o marido se intensifica de forma tamanha que não resta a Frida outra alternativa a não ser tirar forças de si mesma para aprender a cuidar de si:
"Perdi meus melhores anos sendo sustentada por um homem, sem fazer nada além do que julgava que o beneficiaria e ajudaria. Nunca pensei em mim mesma e, depois de seis anos, a resposta dele é que a fidelidade é uma virtude burguesa, que só existe para explorar [as pessoas] e para obter lucros econômicos. (…) Sei que fui tão estúpida quanto se pode ser, mas fui sinceramente estúpida. Imagino, ou pelo menos espero, que me recuperarei pouco a pouco. Vou tentar criar vida nova, colocando minha energia em algo que me ajude a superar isto da maneira mais inteligente.




Em 1935, reconciliaram-se parcialmente, fazendo um acordo de morarem juntos, mas mantendo vidas independentes. Era-lhe muito difícil afastar-se deste homem que a fascinava. Em seu diário, encontramos frases como: “tu manos me estremecieron toda” , “dame ilusión, esperanza, ganas de vivir y no me olvides”, “sabes que te quiero mucho y te perdono todo lo que has hecho, te extraño y quiero que regreses conmigo” ou ainda “aqui estoy para perdonarte, aquí estoy para amarte y tu ¿donde estás, Diego, donde estás?”
Diego Rivera era conhecido tanto pelo talento como artista como por ser mulherengo. Em uma entrevista, descreve as mulheres assim:
"Por naturaleza los hombres somos unos salvajes. Lo seguimos siendo hoy en día. La historia demuestra que el primer progreso fue realizado por mujeres. Los hombres preferimos permanecer brutos, peleándonos y cazando. Las mujeres se quedaron en casa y cultivaron las artes. Ellas fundaron la industria. Fueron las primeras en contemplar las estrellas y en desarrollar la poesía y el arte… Muéstrame cualquier invento que no haya tenido su origen en el deseo de servir a las mujeres."

Em 1937, o casal dá asilo político a Leon Trotski e sua esposa, que refugiaram-se no México, fugindo da perseguição estalinista. A convivência estreita acabou por provocar um relacionamento amoroso entre Frida e Trotski, o qual só durou alguns meses. Em 1938, ela vai a Paris a convite de André Breton, para sua primeira exposição individual. Conhece o fotógrafo Nickolas Muray, com o qual também se envolve afetivamente.



Entretanto, a separação foi passageira e, um ano depois, no aniversário de Diego (8 de dezembro), eles voltam a se casar. Curiosamente, este segundo matrimônio foi condicionado por várias exigências de Frida, a saber:

1. sob o aspecto financeiro, ela assumiu plenamente a sua sobrevivência com a venda dos seus quadros;
2. as despesas domésticas seriam divididas igualitariamente entre o casal;
3. não manteriam relações sexuais (!)


A impossibilidade de ser mãe

Como se não bastassem as deformidades físicas e os tormentos afetivos e sexuais que permearam sua existência, havia outra ferida feminina : a maternidade, igualmente, lhe foi negada. Frida tentou várias vezes levar adiante uma gestação. No entanto, as seqüelas do acidente a impossibilitaram de levar a gravidez até o fim. O primeiro aborto foi em 1930, em razão de o feto estar em má posição.


O segundo aborto

Já o segundo aborto foi no dia 4 de julho de 1932. Foi um aborto espontâneo. O médico tinha incentivado que tentasse manter a gestação até o fim. Por isto, como este bebê tinha sido muito desejado por ela, perdê-lo levou-a a uma profunda depressão – ficou 13 dias no hospital após o aborto. Porém, o ano de 1932 ainda lhe trouxe outra perda significativa: no dia 15 de setembro, sua mãe faleceu. O fato de perder a mãe e abortar pela segunda vez acabou gerando uma tela que foi nomeada Meu Nascimento. Nessa pintura a óleo, a artista imagina como teria sido o parto do qual ela havia nascido, ligando a cena ao seu trauma quando sofreu os abortos. A cabeça da mãe de Frida encontra-se coberta por um lençol, em alusão ao fato de que sua genitora falecera no período em que ela pintava esse quadro – uma Frida morta é dada à luz por uma mãe, também sem vida, sobre uma cama que está ficando encharcada de sangue…



A derradeira tentativa, em 1934, também frustrada, fez-lhe desistir, definitivamente, de ser mãe. Neste mesmo ano, Frida sofre uma amputação na ponta dos dedos do pé direito, além de fazer uma cirurgia de apêndice. Diante disto, Frida aciona sua relação com a arte: “Pintar completou minha vida. Perdi três filhos e uma série de outras coisas que teriam preenchido minha vida pavorosa. Minha pintura tomou o lugar de tudo isto. Creio que trabalhar é o melhor.”

O libelo final


A última década da existência de Frida foi-lhe bastante cruel. Em que pese a notoriedade, os prêmios, as exposições, os alunos fiéis, os cuidados de Diego… seu corpo frágil começou a sucumbir diante de repetitivas infecções e tratamentos exaustivos. Em 1942, por ocasião da amputação do seu pé direito, escreveu: “pés para que os quero se tenho asas para voar.” Entretanto, esta atitude altiva foi-se desvanecendo, a precariedade de sua saúde aumenta e, significativamente, ela começa a escrever um diário. Apesar da agonia, das mais de 30 operações a que se submetera ao longo da vida, na tentativa de melhorar suas condições de saúde, ainda mantinha a fé na cura, mesmo que remota. Por anos, espera com angústia, mas espera. Este sonho deu-lhe alento para continuar vivendo e acabou sendo sintetizado num verso de uma canção preferida, que se tornou o seu lema: “Árvore da esperança, mantém-te firme!”.

Este verso, inclusive, foi o título de uma tela de 1946, na qual há duas Fridas. Uma delas está deitada de lado sobre uma maca, nua, com cabelos soltos, mostrando sua coluna machucada, sob o sol escaldante num deserto seco e com o solo cheio de rachaduras. A outra está no mesmo cenário, só que sob a luz lunar. Ostenta um colete de coluna numa das mãos e uma bandeira onde se lêem os versos da canção-título. Aparece sentada na beira da mesma maca, vestida de vermelho.



Em efeito-cascata, ela começa a sofrer uma série de infecções e seqüelas: em 1946, submete-se a uma cirurgia com implante de osso e precisa de altas doses de morfina, em razão das dores; em 1949, aos 42 anos, sofre de gangrena no pé direito; em 1950, ficou hospitalizada durante nove meses, em decorrência dos problemas repetitivos da sua coluna vertebral. Sofreu sete operações durante este período, pois os implantes ósseos infeccionavam; em 1951, passou grande parte do tempo em uma cadeira de rodas tomando analgésicos; em agosto de 1953, sofre a amputação da perna direita devido à gangrena; em junho de 1954, contrai pneumonia; em 2 de julho de 1954, contrariando ordens médicas, participa de uma manifestação pública. É sua última aparição em público.
Depois da amputação da perna, a depressão aumentou.  Em fevereiro de 1954, chegou a escrever no diário que queria matar-se, porém seu amor por Diego a impedia.

Neste auto-retrato, colocou a morte na testa

Mesmo assim, Frida não perdeu o tom dramático e romântico de seu gestos, até nos últimos momentos de vida. No dia 13 de julho de 1954, no meio da noite, chama Diego e dá um presente inusitado ao marido: um anel comemorativo dos 25 anos de casados. Diego protestou dizendo que ainda faltavam duas semanas, mas Frida insistiu na comemoração. Naquela mesma noite, veio a falecer.


As causas do óbito não são claras, já que não foi feita uma autópsia. Sabe-se que tomou uma dose maior de remédios do que aquela prescrita pelos médicos. Suspeita-se de suicídio. As últimas linhas de seu diário são enigmáticas: “Espero alegre la salida y espero no volver jamás.” A pequena pomba finalmente voou em direção ao horizonte infinito; quem sabe, finalmente, tenha voltado para casa…


Frida foi cremada, conforme seu desejo. Diego guardou as cinzas numa urna pré-colombiana, pedindo expressamente que, quando morresse, fosse também cremado e que as cinzas fossem colocadas junto às de Frida. No entanto, por ocasião de sua morte, a mulher atual e as filhas desrespeitaram sua última vontade, expressa inclusive em testamento. Acreditaram que seria melhor para o país se ele fosse enterrado na “Rotonda de hombre famosos”, na cidade do México.

                                      
Agradecimentos a  Lúcia Torres, mestre em Literaturas de Língua Portuguesa pela UFRGS  pela brilhante pesquisa sobre Frida Kahlo.  Mentora e Facilitadora de projetos do Programa Guardiães do Amanhã, que trabalha com o resgate da identidade feminina através do autoconhecimento e de rituais de diversas culturas. O artigo de Lucia Torres, no qual este foi inspirado, já havia sido postado em março de 2009 por Viviane Guimarães, mas com diferente aspecto e objetivos diversos dos meus.

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