14 abril, 2010

Ensaio sobre Infidelidade (ou apenas «traição»)



A traição é um fenômeno difícil de se mensurar, mas parece que as mulheres estão cada vez mais infiéis e que os homens infiéis começam a sentir-se culpados. A independência feminina promoveu mudanças na mulher em muitos aspectos da sociedade, especialmente no que se refere ao mercado de trabalho. Atualmente os casais são mais cúmplices, construindo e provendo o lar em igual proporção. Ao trair, o homem sente destruir o vínculo de lealdade com alguém que divide tudo com ele. E há ainda a possibilidade de a mulher sair de casa e abandoná-lo se souber do caso - o que era uma atitude improvável alguns anos atrás - e a mudança na relação com os filhos. Parece que ter uma aventura fora de casa significa uma vergonha para o homem. Agora o homem que trai sente que faz algo errado, enquanto antes isso não era colocado em questão.

Tédio do casamento:

As últimas pesquisas revelam que a maioria dos homens é infiel, mas divergem sobre o número de mulheres que traem. O resultado é de que 47% das mulheres e 60% dos homens são infiéis e alguns psiquiatras constatam que 67% dos homens e 23% das mulheres já traíram o parceiro. Mensurar dados sobre infidelidade é tarefa complicada. Não há como verificar se quem responde às pesquisas está mesmo dizendo a verdade, nem há como garantir que a presença do entrevistador não influencia a resposta do entrevistado e, ainda, muitas vezes, o questionário é respondido na frente do parceiro. Estudiosos classificam a infidelidade conjugal em três tipos básicos: a traição como desejo de novidade para vencer o tédio do casamento; a traição como afirmação da feminilidade ou da masculinidade - é o caso dos traidores compulsivos que precisam de nova conquista para descartá-la em seguida; e a síndrome de Madame Bovary (personagem do romance de Flaubert sobre a infidelidade feminina), em que a insatisfação afetiva leva à busca de um amor romântico que não existe. Em todos os casos, homens e mulheres encaram a traição de maneira diferente. Nas pesquisas entre as respostas mais frequentes dos homens estão: por se sentirem atraídos sexualmente e porque as circunstâncias lhes foram favoráveis. Poucas têm a ver com amor ou envolvimento afetivo. No caso das mulheres, os motivos mais citados foram decepção, desamor e raiva do parceiro. Outro dado curioso se refere à incidência das traições. A maioria ocorre nos primeiros quatro anos de casamento. Para os homens, o segundo foco acontece entre os 20 e 24 anos de união. Entre as mulheres, entre o quinto e o nono ano de casamento. Um dos percentuais mais altos de respostas nas pesquisas diz respeito à vontade dos entrevistados de ter um romance fora do casamento: cerca de 60% dos homens e 55% das mulheres. As razões pelas quais ambos evitam o adultério são curiosas. Elas não querem que o marido faça o mesmo. Eles não querem confusão.

Trauma da infidelidade:


Por ser polêmica até a raiz, a infidelidade suscita uma série de mitos infundados. Um deles: o de que a maioria das traições destrói os casamentos. De acordo com as pesquisas, cerca de 30% dos traídos terminaram a relação. O resultado revela que a maioria absoluta de homens e mulheres procura esquecer o que passou. O maior obstáculo é, sem dúvida, conseguir ultrapassar o choque inicial. Outro folclore em torno do adultério é que ter um caso pode reacender o casamento. De fato, o que pode ocorrer é um dos parceiros (o traidor, óbvio) se sentir "reaceso". Dificilmente quem foi traído ficará animado com a notícia. É quase impossível um dos parceiros ser condescendente com a traição. Infidelidade é um dos poucos assuntos sobre o qual a civilização ocidental é intolerante, por envolver mentira, decepção e o rompimento de um pacto muito forte entre o casal. No entanto, é possível superar o trauma e, em muitos casos, até sair do problema com a relação fortalecida. Na traição, o ideal de casamento desmorona. Passa-se a enxergar o marido e ele a mulher como na vida real. Na avaliação dos terapeutas, a melhor forma de tratar o assunto é tentar enxergar exatamente as razões da infidelidade. Não adianta o infiel declarar-se culpado ou tentar convencer o parceiro de que não sabia onde estava com a cabeça. A atitude mais correta é assumir que estava, de fato, em busca de satisfação fora do relacionamento e reconhecer que magoou o cônjuge. O traído, por sua vez, aprenderá alguma coisa se entrar em contacto com sua ferida profunda, com seu sentimento de indignação e se conseguir reavaliar o modo como escolhe suas parcerias amorosas. É muito comum entre pessoas traídas assumir a responsabilidade pelo fracasso da relação. Perguntar-se "onde eu errei?", "por que eu o pressionei tanto?" Na infidelidade, não existem culpados nem vítimas. Mesmo quem foi traído carrega um fardo enorme. A terapia é muito importante para dividir muito bem a responsabilidade de cada um na história. É impossível dizer por que um dos parceiros trai. É outro aspecto a ser desmistificado: o de que o adultério só atinge casais em crise. Não é verdade. Há também casos de infidelidade em relações muito bem sucedidas. É impossível dizer se foi por atração sexual, por vontade de correr riscos ou por paixão. No fundo, não é nem porque o outro é mais bonito ou mais interessante. Mas é que sempre representa uma novidade.


Mitos sobre adultério:

•"Ter um caso pode reacender o casamento." Não é verdade. Se o casamento já anda mal, pode ser o empurrão que falta para acabar de vez. A traição pode até reacender o ânimo de um dos parceiros (o traidor, óbvio), mas pode destruir o do outro.

•"Trair é normal." Não é. Muitas pessoas acreditam que, pelo fato de se estar vivendo mais, é melhor casar várias vezes. Contudo, o mais importante é ter uma relação que garanta felicidade, conforto e proteção. E um caso extraconjugal proporciona exatamente o contrário.

•"Trair é da natureza humana." Há muitos estudos que tentam provar a tese de que mamíferos, ovíparos e até insetos são infiéis por natureza. Mas não existe comprovação científica.


•"Homens traem mais do que as mulheres." É uma das únicas verdades absolutas no que diz respeito à infidelidade. Nos últimos tempos, no entanto, chama a atenção o percentual de mulheres infiéis.

•"Só casamentos em crise estão sujeitos ao adultério." Não. Acontece também em relações muito bem sucedidas. Parece que é quase impossível manter um relacionamento perfeito o tempo todo, os casos costumam ocorrer em momentos piores.


•"Eu tenho culpa por ter sido traído(a)." Claro que não. O parceiro tem outros caminhos para resolver problemas no casamento. Mas é importante prestar atenção em seu comportamento e no da pessoa amada. Em que momento vocês permitiram que o casamento mudasse de rumo?

Dicas para reconstruir a relação:

•Respostas defensivas vão sempre parecer desculpas sem nexo. Seja claro e objetivo.

•Fuja dos questionamentos exaustivos. Simples questões como "onde" "quando" e "quem" podem ser relevantes para aliviar as pressões por repostas mais complexas como "por quê".

•Evite dar detalhes sobre o caso até que o outro comece a digerir melhor a história.

•Corte por inteiro o vínculo com a terceira pessoa. Não adianta só abandonar o sexo. Discussões pessoais, cafés e telefonemas devem ser eliminados. Se o caso é com um colega de trabalho o contacto deve ser estritamente profissional.

•Qualquer encontro, mesmo involuntário com a pessoa em questão, deve ser relatado ao parceiro.

 Recobrar a Confiança


A maioria das pessoas tende a buscar no outro a certeza que muitas vezes não encontra em si mesmo, junto a isso vem o medo em descobrir que o outro não é tão bom, tão perfeito  e nem tão confiável quanto se espera. Quando deposita sua total confiança em uma determinada pessoa, você a coloca em um pedestal e esquece que em alguns momentos na vida todos falham, uns mais outros menos. E falhar é tão amplo e relativo, mas na infidelidade pesa a traição, o erro, o pecado. E o significado de toda essa gravidade pode variar de uma pessoa para outra dentro de nossas relações.

A confiança é o alicerce de qualquer relacionamento e o confiar plenamente ou não, vai depender da historia de vida de cada pessoa, dos valores éticos e morais, da conduta de cada um. A confiança é atitude.

Lealdade ou fidelidade?
Atualmente homens e mulheres que se relacionam tendem a querer e até exigir fidelidade, entretanto ser fiel é um dever moral, uma obrigação, um compromisso, quase um contrato. Mas a lealdade é muito mais que isso, está relacionada ao caráter, a sinceridade, aos vínculos afetivos. Ser fiel é não trair em nome dos valores morais, mas ser leal é não trair por valores emocionais.


Soneto de Fidelidade


De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento


E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


                                          Vinícius de Morais**



Trecho de Mil Perdões de Chico Buarque, cantando aqui com Daniela Mercury -












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